Comparativo: Festivaleiros

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conjuntos KIA Picanto, Opel Karl Rocks, Suzuki Ignis, Auto Mag 01 de Junho de 2018, Photo Paulo maria / INTERSLIDE

Kia Picanto X-Line 1.0 T-GDI | Opel Karl Rocks 1.0| Suzuki Ignis 1.2 GLX 2WD

Baratos, práticos e, acima de tudo, económicos e de imagem jovem. Ideais para o dia-a-dia, mas também aptos para as escapadelas ao fim de semana. Será esta uma combinação possível? Kia, Opel e Suzuki dizem que sim.

A chegada do verão, das idas à praia ao fim de semana e dos poeirentos festivais de música pareceu-nos uma ótima justificação para juntar neste ensaio comparativo três propostas dos ainda muito procurados citadinos, mas que aqui surgem na suas configurações mais radicais, ainda melhor preparadas para o ritmo frenético do quotidiano e para as inevitáveis aventuras das férias, graças à superior altura ao solo e às indispensáveis proteções de carroçaria que lhes confere o aspeto robusto de verdadeiros crossovers. Se, por um lado, quer a Kia, quer a Opel, pegaram nos seus Picanto e Karl, e criaram, respetivamente, as versões X-Line e Rocks através da adição de elementos distintivos na carroçaria como as proteções de guarda-lamas, as jantes de liga leve e os para-choques específicos e, no caso do modelo alemão, as barras de tejadilho; por outro, a Suzuki aposta de raíz no seu Ignis como um modelo puramente inspirado no tão desejado look crossover. O modelo japonês é, também, aquele cujas opiniões acerca do seu design são mais facilmente de amor ou de ódio de tão diferente que é, destacando-se com facilidade dos seus rivais mais consensuais, parecendo um “kei-car XL” cheio de pinta e com alguns toques reminiscentes de um seu antecessor, o SC100, como a máscara negra que envolve os faróis e as três marcas em baixo-relevo no terceiro pilar.

KIA PICANTE E ROCKS SÓLIDO
Com a introdução da versão X-Line, chega também o motor 1.0 T-GDI com três cilindros já conhecido de outros modelos, mas exclusivo na gama Picanto da versão mais aventureira. Os 100 cavalos e o bom binário conferem-lhe uma indiscutível vantagem dinâmica, sendo por boa margem o mais rápido dos três pequenos automóveis em confronto, apesar de ser um pouco mais pesado, sendo o único que supera o valor de uma tonelada na balança. No outro extremo, com apenas 885 quilogramas, o Suzuki recorre a um motor 1.2 atmosférico tetracilíndrico com 90 cavalos que apesar de não dispor do “pulmão turbo” do Picanto, combina bastante bem com o peso pluma do Ignis, nunca transmitindo a sensação de que mais motor seria benvindo. É um motor “à antiga”, com uma entrega de potência mais tardia mas que não desilude. O Opel Karl Rocks tem o motor mais fraco do trio, mas na verdade tem nessa característica um grande argumento, pois dispõe do bloco que melhor encaixa neste segmento, cujo comprador valoriza mais a simplicidade e economia de combustível do que as recuperações e as acelerações. Apesar de possuir a relação peso/potência mais desfavorável dos três, ao volante, o Karl convence pela facilidade com que se deixa levar e pelo facto de nos obrigar a espremer bem o pequeno 1.0 tricilíndrico se realmente quisermos avançar com mais vigor, o que, sejamos sinceros, faz parte da sempre alegre experiência de conduzir um carro pequeno com um motor também ele pequeno. Todos dispõem de caixas manuais de 5 velocidades com bom tato e de fácil atuação, ajudando nas manobras em cidade e no “para e arranca” a que nenhum virá a escapar na sua utilização. O chassis do mais picante dos Picanto mostra-se à altura do desempenho do seu vivaço motor turbo graças aos controlados movimentos da carroçaria e a um bom comportamento em curva, também favorecido pelos pneus de baixo perfil de que dispõe. É a melhor opção se procura todas as vantagens de um citadino, mas caso não resista, de vez em quando, ao prazer de carregar no acelerador e deixar-se levar na estrada contorcida que normalmente evita a caminho de casa. Já o pequeno Ignis revela o melhor de si em ambiente puramente citadino. Ao reduzido raio de viragem junta-se a posição de condução elevada que favorece a boa visibilidade na gincana da cidade e a confortável suspensão que lida com as indesejáveis lombas com bastante destreza. A direção leve é também uma mais-valia, mas requer alguma habituação por nem sempre proporcionar o natural desenrolar do volante ao acelerarmos à saída das curvas. Por fim, mas, claramente, não em último, o Opel Karl Rocks. Indo diretamente ao assunto, a surpresa do trio no que à condução diz respeito. Apesar dos 73 cavalos do seu pequeno motor não terem qualquer hipótese quando colocados lado a lado com as potências dos seus dois rivais, em estrada o Karl Rocks revela uma solidez incomparavelmente superior à do Ignis e também à do Picanto, fruto de um compromisso de amortecimento muito bem conseguido. Relativamente ao Karl “não Rocks”, e para além dos milímetros adicionais de altura ao solo, a Opel aplicou novos amortecedores e uma barra estabilizadora de diâmetro ligeiramente superior e o resultado fi nal difi cilmente podia ser mais convincente, dadas as aspirações de um modelo como este. Nas curvas de maior apoio, o pequeno Opel revela uma pose digna do segmento acima e mostra-se sempre ágil, nunca tombando em demasia quando exageramos com o volante. Em ambiente de autoestrada, é também aquele que melhor se comporta, denotando uma maior atenção colocada na insonorização do habitáculo, uma vez que o Kia não consegue anular com eficácia o ruído de rolamento dos pneus de medida mais desportiva e o Suzuki mostra-se sempre mais sensível às velocidades elevadas e aos ventos laterais.

 

SUZUKI IGNIS É LÍDER NA VERSATILIDADE
Num segmento em que as dimensões compactas das carroçarias têm um papel essencial no desempenho em cidade e no consequente sucesso comercial de cada modelo, é também fulcral que os fabricantes consigam encontrar dentro dos pequenos habitáculos dos seus citadinos alguns centímetros livres para que, principalmente naqueles que serão utilizados como único automóvel da família, consigam transportar em relativo conforto pelo menos quatro passageiros, sendo que muitas das vezes estes são crianças, as quais exigem as respetivas volumosas cadeiras de segurança. Aqui, o Ignis destaca-se devido às portas traseiras que abrem praticamente a noventa graus, facilitando o acesso. Ainda no que diz respeito ao espaço, também a bagageira tem de conseguir engolir alguns sacos e objetos. No habitáculo, as abordagens das três marcas em confronto são bem diferentes, logo pela lotação declarada. O Suzuki apenas disponibiliza lugar para quatro passageiros, mas todos viajam com relativo conforto e o banco traseiro não só permite rebatimento na proporção 50:50 como também possibilita regulação longitudinal na mesma razão, soluções que lhe dão vantagem perante os seus dois concorrentes no campo da versatilidade, uma vez que permite escolher entre mais espaço para as pernas ou para a bagagem, consoante a necessidade. Independentemente da configuração dos bancos, o Ignis tem a maior bagageira do comparativo, mas é a do Karl, que apesar de ser a mais pequena, aquela que mais perto fica de oferecer um plano de carga horizontal ao rebater os bancos traseiros. Quer o citadino coreano, quer o alemão, estão homologados com lotação para cinco passageiros, mas na verdade tal aventura só é aconselhável num percurso relativamente curto ou caso não simpatize muito com o amigo que o seu amigo decidiu convidar para o café. Apesar disso, e considerando que atrás viajam apenas duas pessoas, o Kia Picanto bate o Opel porque oferece uma superior liberdade de movimentos àquela que está disponível no Karl Rocks. Relativamente a equipamento e a design interior, também o Opel tem a vida dificultada pelos argumentos dos modelos asiáticos, em particular pela forte ofensiva em equipamento do Ignis que inclui itens como o ar condicionado automático, os bancos dianteiros aquecidos, a iluminação dianteira em LED, o alerta de transposição involuntária da faixa de rodagem e a travagem autónoma de emergência e cuja apresentação do tablier e consola possui imagem bem mais jovial. Como seria de esperar num segmento com propostas tão acessíveis, algo que é comum aos três automóveis em confronto é a utilização de materiais rijos no habitáculo. No entanto, o divertido Suzuki fi ca aquém dos seus rivais no que diz respeito à qualidade de construção.

OPÇÕES NÃO FALTAM
Os automóveis citadinos são várias vezes injustamente esquecidos. Injustamente porque, para todos os efeitos, este é o segmento que melhor simboliza o automóvel enquanto meio de transporte para as massas, pensado para nos levar em conforto e segurança do ponto A ao ponto B e que viu nascer ícones como o Mini original e os Fiat 500 e 600. São automóveis que se querem acessíveis ao comprar, económicos ao circular, fáceis de manter e que caibam em qualquer canto não pago da cidade onde trabalhamos. Mas são, para além de todos os seus argumentos, símbolos da liberdade dos mais jovens, as primeiras quatro rodas que lhes possbilitam, enquanto recém-encartados, ir ao imperdível festival de música cuja estrada de acesso nem sempre é a mais convidativa ou ir de férias com os amigos, carregados até acima com o material de campismo e com as pranchas de surf assentes no tejadilho. Qualquer um deles é um excelente companheiro para esse tipo de aventura mas são vários os argumentos que os distinguem. A garantia de 7 anos e os 100 cavalos do motor do Picanto, a facilidade de condução e a melhor postura em estrada do Karl Rocks, assim como a imagem irreverente e a versatilidade do Ignis não facilitam na hora de decidir. O Picanto X-line pode gabar-se de ser a única versão da gama que pode estar equipada com este milagre do downsizing, o motor 1.0 T-GDI da Kia, mas como alternativa às versões em ensaio nestas páginas, o Suzuki disponibiliza uma versão híbrida do motor 1.2 para ainda maior efi ciência – assim como a opcional tração integral – e o Opel Karl Rocks pode também ser encomendado na versão Flexfuel que permite a utilização de GPL, um festival de escolhas.
txt_João Isaac | jisaac@automag.pt

 

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